Estou perdida. E agora?

Quando eu viajei sozinha pela primeira vez para estudar fora, o que eu mais buscava era me achar. Achar meu lugarzinho no mundo e, de alguma forma, me sentir mais completa.

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Caroline

Jun 05, 2020

4min

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Já parou para pensar que na maioria das vezes quando as pessoas estão lidando com algum tipo de problema ou saindo de alguma situação desconfortável, a primeira coisa que vem a cabeça delas é viajar?! É como se uma viagem tivesse o poder de nos desligar um pouco do mundo, da vida real e, por alguns dias, pudéssemos finalmente estar em paz.

Não que uma viagem não possa funcionar como um “remédio” para fugir dos problemas e achar um pouco mais de calmaria. Mas, a depender do tipo de viagem, as pessoas esquecem de contar que vamos nos perder muito antes de – quem sabe – finalmente nos encontrar. 

Fui sozinha e sem conhecer absolutamente ninguém – apenas a senhoria que me receberia e que, ainda assim, era uma completa estranha para mim. 

E para quem foi no intuito de encontrar a si mesmo, eu me perdi bastante. A começar pelo endereço do apartamento que eu iria ficar que estava errado e acabei indo parar numa pensão. 

E a partir daí eu sempre estive perdida. Não tinha amigos, não conhecia nenhuma rua nem tão pouco qualquer restaurante. Eu saía, literalmente, andando por aí sem rumo. E, naturalmente, as coisas foram acontecendo. 

Fui conhecendo lugares que google maps nenhum me apresentaria, e também fui interagindo com pessoas que rede social nenhuma seria capaz de aproximar. 

E foi então que eu descobri que a melhor parte de viajar não é para se achar, mas, ao contrário, para poder se perder por aí. Quando a gente quer encontrar a si mesmo, geralmente buscamos receitas prontas de lugares, pessoas ou situações que irão nos consertar ou, quem sabe, trazer as respostas que tanto procuramos. Mas esquecemos que as melhores coisas acontecem justamente quando a gente se perde por aí e se entrega a situações que não estavam no script. 

A gente passa a conhecer uma versão nossa muito mais corajosa e destemida do que imaginamos um dia ser. E é aí que o mundo começa a ficar pequeno. 

O problema é que, para se perder, precisamos lidar com o incerto. E o incerto, por si só, traz uma bagagem de medo, dúvidas e incertezas sobre o próximo passo, o que em um primeiro momento não faz nossos olhos brilharem. 

Nós gostamos mesmo é da zona de conforto. 

Mas chega uma hora que não há zona de conforto no mundo que seja capaz de suprir os nossos questionamentos sobre a vida e sobre nós mesmos. 

E nessa busca de viajar para se perder e, finalmente, se encontrar, aparece uma pandemia que bagunça todos os nossos planos. Me sinto perdida e não posso tomar o meu “remédio” mais eficiente: viajar por aí. 

E tudo o que planejamos parece tão pequeno e irrelevante diante de um momento tão delicado. Estamos confinados e aquela incerteza que tanto dá frio na barriga faz agora parte do nosso dia-a-dia. 

Na primeira vez que me perdi viajando eu fiquei sem bateria, não tinha muito dinheiro e estava em um outro país que não me oferecia um único rosto amigo para me ajudar. Minha garganta embargou querendo chorar, foi quando algumas pessoas se prontificaram em me ajudar a encontrar um lugar para dormir. 

Naquele dia eu deitei aos prantos e me questionei o que era que eu estava fazendo ali e como seriam meus dias em diante. Até que aquela frase “viver um dia de cada vez” passou a fazer cada vez mais sentido. 

Os dias que se seguiram não foram fáceis, mas, foram necessários para me moldar e me fortalecer para o que ainda estava por vir. 

Talvez eu precise lembrar um pouco mais da primeira vez que me perdi para entender que, se estou me sentindo perdida hoje, é porque eu posso – e preciso – evoluir ainda mais. 

Sentir-se perdido em meio a uma pandemia não só é normal como também é completamente compreensível diante da maneira brusca com a qual foi preciso nos reinventarmos. 

Precisamos não somente acreditar um pouco mais nas forças do universo, mas, sobretudo, acreditar mais em nós mesmos. Acreditar que conseguimos e precisamos viver um dia de cada vez. Precisamos entender que se sentir perdido não é sinônimo de fracasso, mas, ao contrário, é ser forte o suficiente para enxergar e admitir a nossa vulnerabilidade. 

Tem sido necessário se reinventar, seja pessoal ou profissionalmente. Então que a gente possa se sentir perdido inúmeras vezes e consiga se fortalecer cada vez mais. 

Afinal, se perder também é uma forma de se reinventar, de se descobrir e de entender que não temos o controle de tudo. Que você se perca em inúmeras viagens que ainda estão por vir, mas, antes de tudo, se perca dentro de você. 

Conheça outras versões suas que nem mesmo você sabia que poderiam existir, percorra sua história e olhe com mais carinho para a sua trajetória. 

Aceite suas falhas e seja mais gentil com seus medos e inseguranças. Tudo isso vai passar e, assim como nas viagens, se perder é um caminho para dentro de si mesmo. 

Por isso, que a gente se perca para voltarmos ainda mais fortes. 

Que a gente consiga viver um dia de cada vez sabendo que dias melhores virão. 

Viajar é uma grande aventura. Viver também o é. E qual é a aventura que não tem altos e baixos? Estamos vivendo um presente confuso e um futuro incerto. Noites mal dormidas e pensamentos a mil. Inúmeros questionamentos e aquele frio na barriga. 

Um coração apertado e o desejo de saber qual será o próximo passo. Planos adiados, compromissos prorrogados, sonhos suspensos e, sobretudo, prioridades alteradas. 

Sim, eu estou perdida. Mas quer saber? Eu já perdi e me encontrei tantas vezes que não será diferente agora. Vou me perder e buscar me encontrar quantas vezes for necessário. Afinal, ainda tenho muito o que viver e, principalmente, muito lugar para viajar.



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